Esperei 11 anos para entrar na faculdade: um sonho que as dificuldades não conseguiram interromper
Entre dificuldades financeiras, noites de estudo, conflitos e persistência, descobri que uma conquista não precisa ser perfeita para representar uma grande vitória.
Como mencionei em capítulos anteriores, sempre considerei o aprendizado um dos maiores tesouros que uma pessoa pode ter.
Quando adquirimos conhecimento sobre aquilo que fazemos, ganhamos mais segurança para desenvolver nosso trabalho, tomar decisões e seguir adiante. Talvez por isso estudar sempre tenha representado muito mais para mim do que simplesmente conquistar um diploma.
Mas, entre desejar estudar e conseguir realizar esse sonho, passaram-se 11 anos.
Um sonho que precisou esperar
Depois de terminar o segundo grau, eu queria continuar meus estudos e entrar para a faculdade. Porém, naquele momento, havia uma prioridade maior: meu filho ainda era pequeno e eu não tinha ninguém com quem pudesse deixá-lo enquanto estivesse estudando.
Por isso, esperei.
Não abandonei o sonho. Apenas o guardei.
Ele permaneceu vivo dentro de mim até que meu filho tivesse idade suficiente para ficar em casa sozinho e eu pudesse, finalmente, tentar realizar aquilo que havia adiado durante tantos anos.
Quando chegou esse momento, descobri que esperar havia sido apenas o primeiro desafio.
Quando os números diziam que seria melhor desistir
Na época, meu salário era de aproximadamente R$ 450, enquanto a mensalidade da faculdade custava R$ 360.
E a mensalidade não era minha única despesa.
Eu tinha uma casa para manter, um filho e ainda pagava as prestações da minha casa.
Se colocasse tudo no papel e olhasse apenas para os números, talvez a conclusão mais lógica fosse:
“Não dá.”
Para fazer a matrícula, eu já precisava pagar a primeira mensalidade. E sabia que, se dependesse única e exclusivamente do meu salário, seria muito difícil continuar.
Mas existe uma característica que me acompanha em diferentes momentos da vida: diante de uma dificuldade, antes de desistir, eu procuro uma solução.
Foi o que fiz.
Sem ter alguém que pudesse me ajudar financeiramente, recorri a um empréstimo bancário. Com aquele dinheiro, consegui atravessar os primeiros meses enquanto aguardava uma resposta sobre uma bolsa de estudos.
Foram aproximadamente seis meses de incerteza.
Até que a resposta chegou.
Consegui uma bolsa de 70%.
A partir dali, pude respirar um pouco mais aliviada.
O sonho ainda exigiria muito de mim, mas agora parecia possível continuar.
Madrugadas de estudo e uma dificuldade que eu precisava superar
A faculdade trouxe uma rotina intensa.
Foram muitas noites sem dormir, madrugadas estudando, fazendo pesquisas e preparando trabalhos.
E havia outra dificuldade.
Muitas das minhas colegas já trabalhavam como professoras. Quando discutíamos determinado assunto ou precisávamos apresentar um trabalho, elas podiam recorrer às experiências que já viviam em sala de aula.
Eu não tinha essa mesma experiência prática.
Precisava pesquisar, estudar, tentar compreender profundamente o assunto e depois encontrar uma maneira de explicá-lo a partir da teoria.
Não era motivo para desistir.
Era motivo para estudar mais.
Quando as críticas tiveram efeitos diferentes
Desde o início do curso, formamos um grupo. Estudávamos juntas, trocávamos ideias, preparávamos os trabalhos escritos e depois fazíamos as apresentações para a turma, muitas vezes como se estivéssemos ministrando uma aula.
Em uma dessas apresentações, cada integrante deveria explicar uma parte do trabalho.
O meu tema era a diferença entre um curso técnico e um curso superior.
Considerei um assunto relativamente fácil e tranquilo de apresentar. Preparei minha parte e fiz a apresentação.
Quando terminei, porém, vieram muitas críticas.
E elas não foram dirigidas somente a mim. Outros integrantes do grupo também foram criticados.
Naquele dia, a situação acabou provocando até um desentendimento dentro do grupo. Saí dali bastante abalada.
Mas, passado aquele momento, percebi algo que nunca esqueci.
Uma mesma crítica pode produzir reações completamente diferentes nas pessoas.
Alguns colegas ficaram entristecidos e começaram a se sentir incapazes.
Comigo aconteceu de outra maneira.
Aquilo acabou fortalecendo ainda mais uma ideia que começava a crescer dentro de mim: quando chegasse o momento de realizar um trabalho realmente importante, eu queria depender da minha dedicação e assumir a responsabilidade pelo resultado.
Não porque trabalhar em grupo seja ruim.
Mas porque, naquele momento da minha vida, eu precisava descobrir até onde conseguiria chegar contando com o meu próprio esforço.
A decisão de fazer o TCC sozinha
Quando chegou a época do Trabalho de Conclusão de Curso, a orientadora reorganizou os grupos. Os trabalhos poderiam ser feitos em duplas ou grupos de até três pessoas.
Foi quando tomei minha decisão:
Eu faria o meu TCC sozinha.
Procurei a direção da faculdade, conversei sobre minha intenção e recebi apoio para seguir dessa maneira.
Antes de desenvolver o trabalho definitivo, porém, era necessário apresentar um projeto com o tema escolhido.
Preparei meu primeiro projeto.
Não foi aprovado.
Poderia ter interpretado aquilo como um sinal de que havia escolhido um caminho difícil demais.
Mas refiz.
Apresentei novamente.
E dessa vez deu certo.
Um trabalho para provar algo a mim mesma
O tema que escolhi para meu TCC foi:
“A importância da participação dos pais no aprendizado da criança.”
A partir dali, dediquei-me o máximo que pude.
Não queria fazer um bom trabalho apenas para conseguir uma nota alta.
Havia algo mais importante envolvido.
Eu queria provar para mim mesma que era capaz de enfrentar aquele desafio.
Depois de tantos anos esperando para entrar em uma faculdade, depois das dificuldades financeiras, das noites estudando, das inseguranças e dos obstáculos que apareceram pelo caminho, chegar até ali já significava muito.
Fiz o trabalho escrito.
Depois veio a apresentação.
E consegui nota 8 nos dois.
Eu não precisava de um 10 para vencer
Curiosamente, durante a faculdade convivi com pessoas para quem uma nota abaixo de 10 parecia quase uma derrota.
Eu terminei meu TCC com nota 8.
E estava diante de uma das maiores vitórias daquela fase da minha vida.
Porque naquele momento compreendi que a minha conquista nunca esteve em alcançar uma nota perfeita.
Estava em chegar até ali.
O primeiro projeto não havia sido aprovado — e eu refiz.
Não tinha experiência em sala de aula como algumas colegas — e estudei.
Meu salário quase não comportava a mensalidade — e procurei uma alternativa.
Precisei esperar 11 anos — e não abandonei o sonho.
Aquele 8 carregava uma história que nenhum número seria capaz de medir.
Finalmente, a formatura
E então chegou a formatura.
Depois de tudo o que havia acontecido, poder viver aquele momento e participar do baile de formatura tinha um significado muito maior do que simplesmente concluir um curso.
Era a realização de um sonho que havia permanecido guardado durante 11 anos.
Imagino que, para quem olhava de fora, fosse apenas mais uma formanda celebrando uma conquista.
Mas eu sabia tudo o que existia por trás daquele momento.
Sabia das contas.
Do empréstimo.
Da espera pela bolsa.
Das madrugadas estudando.
Dos trabalhos.
Das críticas.
Do projeto que precisei refazer.
E de todas as vezes em que teria sido mais fácil dizer que as circunstâncias não permitiam continuar.
Naquela noite, porém, as dificuldades já não ocupavam o lugar principal.
O sonho ocupava.
🌻 Minha Virada Invisível
Hoje, quando olho para aquela fase, não são os desentendimentos que considero mais importantes.
Foram momentos desagradáveis, alguns dos quais nem faço questão de reviver.
O que permaneceu foi aquilo que construí apesar deles.
A faculdade me deu conhecimento, experiências e um diploma. Mas também me ensinou algo sobre mim mesma.
Aprendi que determinação não significa que tudo dará certo na primeira tentativa.
Às vezes, significa justamente receber um “não”, refazer o projeto e apresentar novamente.
Aprendi também que nem toda vitória precisa vir acompanhada de uma nota 10.
Algumas vitórias são silenciosas.
Acontecem quando ninguém conhece todas as batalhas que existiram antes daquele momento.
Eu esperei 11 anos para começar.
E consegui chegar à formatura.
Hoje, olhando para trás, algumas lembranças perderam a importância. Outras permaneceram para sempre.
Porque, no final,
as dificuldades passaram.
O aprendizado ficou. 🌻