Onde Nasceu o Meu Desejo de Mudar
No texto anterior de Minha Virada Invisível, compartilhei um dos momentos mais felizes e emocionantes da minha caminhada: o resultado do PET-Scan e a gratidão que senti ao receber aquela notícia.
Agora quero voltar muitos anos no tempo.
Quero voltar à minha infância, porque hoje percebo que alguns dos sonhos que me trouxeram até aqui começaram quando eu ainda era apenas uma menina.
Uma infância em meio à natureza
Nasci e vivi até os meus 9 anos em uma fazenda linda que pertencia ao meu pai.
Havia muita terra, árvores, frutas e uma natureza que fazia parte do nosso cotidiano. Mas, apesar de toda aquela riqueza aos olhos de uma criança, a realidade financeira da família era difícil.
Meu pai não dispunha dos recursos necessários para manter a propriedade e sustentar a família como gostaria.
Como aconteceu com milhares de brasileiros, ele precisou sair em busca de melhores condições de trabalho em outro estado.
Minha mãe ficou enfrentando as dificuldades e cuidando dos filhos pequenos.
E foi nesse cenário que comecei, ainda criança, a imaginar que a minha vida poderia ser diferente.
Os pés de café e os pensamentos de uma menina
Há uma lembrança daquela época que nunca saiu da minha memória.
Na fazenda existiam vários pés de café.
Não eram pequenos como alguns que vemos hoje. Na minha lembrança de menina, tinham troncos robustos e galhos fortes.
Muitas vezes eu subia naqueles galhos e ficava ali, quieta, olhando os frutos e pensando na vida.
Eu tinha apenas 9 anos.
Ainda não era alfabetizada, porque a escola ficava distante da fazenda e o acesso aos estudos era muito difícil.
Mas, mesmo sem saber ler e escrever, eu já sonhava.
Olhava para aquelas árvores e meus pensamentos voavam.
Imaginava como seria a vida fora dali e pensava que, de alguma maneira, as coisas poderiam melhorar.
Naquela época eu não sabia explicar o que sentia.
Hoje sei.
Era esperança.
A despedida da fazenda
Um dia, meu pai voltou e anunciou:
Nós iríamos embora da fazenda.
Foi uma notícia que despertou sentimentos completamente diferentes dentro de mim.
Fiquei feliz porque enxerguei naquela mudança uma possibilidade.
Mas também fiquei triste.
Eu deixaria para trás a natureza, as árvores, as frutas, os pés de café e o lugar onde havia vivido toda a minha infância.
Estávamos deixando aquilo que conhecíamos para buscar alguma coisa que ainda não sabíamos como seria.
Mesmo assim, dentro daquela menina havia um pensamento muito forte:
Agora eu poderia estudar.
Quando descobri o meu primeiro tesouro
A mudança não foi fácil.
Sofri bastante para me adaptar.
A casa agora era pequena e alugada.
As frutas que antes estavam disponíveis na fazenda precisavam ser compradas.
A liberdade daquele espaço enorme havia ficado para trás.
Tudo era diferente.
Mas havia algo que, para mim, compensava muitas daquelas dificuldades:
Eu finalmente poderia frequentar uma escola.
Quando fui matriculada, senti como se tivesse encontrado um tesouro.
Eu era apenas uma criança, mas começava a compreender uma coisa que carregaria comigo pelo resto da vida:
O conhecimento poderia abrir caminhos que as dificuldades pareciam fechar.
Talvez eu ainda não soubesse chamar aquilo de futuro, oportunidade ou transformação.
Eu apenas sabia que queria aprender.
E queria aprender muito.
O que aquela menina me ensinou
Hoje, olhando para trás, percebo que parte da mulher que me tornei já estava naquela menina sentada nos galhos dos pés de café.
Ela ainda não sabia ler.
Não conhecia o mundo digital.
Não imaginava que um dia trabalharia por mais de três décadas, que enfrentaria tantas mudanças ou que estaria aqui escrevendo a própria história.
Mas aquela menina já possuía algo que o tempo nunca conseguiu tirar dela:
A vontade de aprender e a esperança de construir uma vida melhor.
A fazenda ficou no passado.
Os pés de café ficaram na memória.
Mas o sonho daquela menina veio comigo.
E talvez aquela tenha sido uma das minhas primeiras Viradas Invisíveis.
🌻 Para guardar
“Antes mesmo de aprender a ler, eu já sonhava com um futuro diferente. Quando encontrei a escola, descobri que o conhecimento seria o caminho para chegar até ele.”