Nos Bastidores da Virada: O Dia em que o Cinema Desafiou o Petróleo
Quando o petróleo ditava o ritmo da cidade
Cheguei a esta cidade em 1982, encontrando um lugar que pulsava no ritmo e na promessa de riqueza do petróleo.
Em 1988, iniciei minha trajetória como funcionária pública municipal, trabalhando em diferentes setores da prefeitura. Mas foi em 2007 que minha jornada tomou um rumo artístico e definitivo: fui transferida para a Secretaria de Cultura exatamente no momento em que um dos projetos mais ousados da história local estava saindo do papel.
Da minha mesa de trabalho, vi nascer as diretrizes, os papéis e o planejamento de uma gestão que resolveu desafiar a lógica óbvia do ouro negro. Sob o argumento visionário de que o petróleo um dia iria acabar, o governo da época decidiu que a cidade precisava urgentemente fomentar o comércio local, gerar empregos e diversificar sua identidade.
A aposta foi audaciosa: investir no potencial humano através da arte.
Foi ali, bem diante dos meus olhos, que vi ser implantada a escola “Magia do Cinema”, oferecendo cursos técnicos de teatro, atuação, roteiro e cenografia.
Quando decidi sair dos bastidores
Como toda grande ideia que rompe padrões, o projeto dividiu a cidade. Os opositores políticos torciam pelo fracasso e criticavam duramente a iniciativa, enquanto outros viam ali uma janela para o futuro.
Mas, longe das paixões partidárias e das disputas de poder que eu testemunhava nos bastidores burocráticos, algo muito mais profundo começou a acontecer dentro de mim.
Enquanto eu ajudava nos bastidores da cultura para a população, carregava minhas próprias travas invisíveis.
Eu já havia enfrentado as dificuldades da faculdade, mas ainda carregava uma barreira que me acompanhava: o medo de falar em público.
Foi quando decidi cruzar a linha entre a servidora que ajudava na organização do projeto e a cidadã que precisava dele:
matriculei-me no curso de teatro.
O palco onde comecei a encontrar minha voz
Subir naquele palco foi o meu verdadeiro despertar.
Ali, aprendi que a comunicação não é um privilégio de nascença, mas uma musculatura que se treina.
O teatro me ensinou a encarar o público, a dominar a respiração e a entender que o erro faz parte do ensaio.
Aquela política pública de 2007, tão criticada por alguns, transformou-se na chave da minha própria Virada Invisível.
Quase duas décadas depois
Quase duas décadas se passaram desde o início daquele projeto.
Hoje, através do meu espaço, o Virada Invisível, dedico-me a compartilhar histórias reais de superação — tanto as minhas quanto as de tantas outras pessoas que enfrentam quedas e buscam um recomeço.
O mundo mudou e os desafios migraram para as telas digitais.
O trabalho na internet abriu portas incríveis, mas também trouxe armadilhas severas, como a ilusão de ganhos fáceis e o adoecimento psicológico causado pelos jogos online.
Superar os vícios e as ilusões da modernidade exige a mesma coragem que precisei para pisar no palco pela primeira vez: a coragem de olhar para dentro, reconhecer a vulnerabilidade e reescrever o próprio roteiro.
O que ficou daquele palco
As críticas políticas daquela época continuam ecoando na memória dos antigos opositores da cidade. Mas, para mim, o legado humano está acima de qualquer partido.
Aquela escola de cinema pode ter sido um campo de batalha político, mas foi o cenário onde perdi o medo de usar a minha voz.
O petróleo, de fato, é um recurso finito.
Mas a nossa capacidade de nos reinventar e dar a volta por cima é absolutamente inesgotável.